Editorial

Revista Linha Mestra – Ano VI. No. 21 (ago.dez.2012). ISSN: 1980-9026

O mundo grita. Escuta?

A palavra aproximou-se igual à sombra que tremula sob o sol do céu do meio-dia. Uma queimadura, ferida que abre aquela superfície porosa, latejante; um veio d’água. Rolou de ponta a ponta da superfície, e não satisfeita, roçou a sua ausência de profundidade, aconchegou-se em uma dobra e adormeceu.

A palavra devaneou, excitando-se em pronúncias incompreensíveis. No seu sonho sem sentido, a palavra gaguejava, cacarejava e almejava ser silêncio. E tinha tanto ruído, tanto motivo, tanta intenção, tanta vontade, que se encheu e quando quase estourava, a palavra emudeceu.

Intranquila e desconfiada da própria mudez, a palavra enroscou-se em fios emaranhados que a forçavam a lançar-se fora do não-dito. O campo de forças criado pelos fios apontava à palavra a fala. Mas a palavra queria tanto o silêncio. E só alcançava a impossibilidade do preferir não falar e ter que ficar muda.

A palavra pensava, não por palavras, mas com imagens, opacas, sobrepostas, áridas, desfocadas e insanas. As imagens enlouqueciam a palavra, deixavam-na enfurecida, deslocada de um alfabeto que a ordenasse. Será que, para encontrar o silêncio, só mesmo com a morte da palavra?

Em rodopios sorrateiros, a palavra entocou-se. Mas não foi em um lugar sombrio ou isolado. Fez sua toca no ponto mais alto daquela superfície porosa, latejante. Tão alto era o ponto que as linhas não alcançavam, e a palavra pode sentir a solidão. Aquietar, pensou a palavra, com o vazio oco e totalmente preenchido do ponto mais alto.

De lá, a palavra saltou e foi habitar um lugar, como um corpo estranho, um tipo de vírus que colide com uma estrutura que o rejeita e traça planos e estratégias para sua eliminação. A palavra sentia-se continuamente sendo combatida e fraturada. Em torno da palavra formou-se como se fosse um tipo de couraça, de capa da invisibilidade, de proteção que beira o menosprezo.

A palavra estava sem-lugar. Desassossegada, a palavra coçou-se inteira e em partes, e foi expelida ao vento, em sementes voadoras, em bicos de pássaros, em línguas dissonantes, em correntezas de ar e de água, nos brilhos das gotas de orvalho que são feridos pelos raios do sol, na poeira depositada em chão.

Na ponta dos dedos da criança.

Escuta?

……………………………………………………

A estruturação da programação do 18º Cole, tanto acadêmica quanto artístico-cultural, foi sendo gestada desde janeiro de 2011. Membros da comissão organizadora reuniram-se em julho de 2011 na Faculdade de Educação da Unicamp para traçar os planos de organização do evento, assim como pensar os convidados para as diferentes atividades. É importante destacar este caráter coletivo e integrado do trabalho que se expressa no nome dos convidados e o tipo de sua inserção na programação do evento.

No referente às conferências, foram convidados intelectuais e artistas do Brasil e do exterior, cujo destaque na área de produção literária, filosofia, estética e educação ressoam com a temática do evento. A oportunidade que os congressistas terão de escutar e dialogar com pesquisadores, escritores e artistas de algumas partes do mundo certamente adensará os significados da pergunta sobre a escuta dos gritos e condições de viver e resistir nas bordas, nas fronteiras e na invenção de novas estéticas pela palavra escrita e nas visualidades.

Nesta versão do 18º Cole, inauguramos o trabalho com linhas temáticas que não têm referência com os congressos anteriores. São elas: Entrelace de diferentes linguagens, Dinâmicas e criações de linguagens que leem o mundo, Contracombates à homogeneização na escuta do mundo, Dobras da língua portuguesa, ‘Sem sentido’ do mundo, Fragmentos espaçotemporais,  Outros gritos.

Para cada uma das linhas temáticas convidaram-se pesquisadores brasileiros de diferentes instituições do Brasil, de expressão e renome, que articularão, a partir de seus trabalhos de pesquisa, outros sentidos para essas linhas, buscando um diálogo promissor com os trabalhos que serão apresentados no congresso.

As mesas redondas são o espaço para que os eixos organizadores, que até então vinham sendo a força motriz de estruturação dos Coles, rearticulem-se na interação com a temática do evento. Os convidados dessas mesas redondas, sugeridos pelos coordenadores de programa, representam, nacional e regionalmente, exemplos do que há de mais instigante no pensamento sobre várias perspectivas do campo da leitura: escola, infância, alfabetização, mídia, biblioteca, literatura, dentre outros.

Retomamos neste 18º Cole a realização dos minicursos. São trinta e um minicursos, com temáticas variadas, e apresentando-nos a multiplicidade temática e de ênfase dos vários sentidos da leitura. Mais de seiscentos participantes do evento poderão experienciar o encontro com esses temas, espalhando-se em desejos de continuidade do estudo, da vivência e da criação.

Expressamos nossos agradecimentos às agências de fomento e ao apoio institucional de unidades acadêmicas e da administração central da Universidade Estadual de Campinas, especialmente pela aposta na qualidade e na singularidade dos Congressos de Leitura do Brasil.

Fez parte da proposta da Diretoria da Associação de Leitura do Brasil (ALB), que presidiu a organização do evento, criar condições que favorecessem a inclusão do maior número de pessoas, concedendo gratuidade de inscrição como ouvinte para os associados em dia com a ALB, além da cessão de inscrições como contrapartida ao apoio da Unicamp.

Organizamos, também, sob a coordenação da Profa. Dra. Alik Wunder, a Feira Cultural e Literária do 18º Cole, com vendas de livros e promoção de atividades artísticas variadas. A Feira é aberta ao público em geral e tem entrada gratuita.

A Feira Cultural e Literária contemplará as questões acadêmicas ligadas à temática do 18º COLE – O mundo grita. Escuta? – que é um convite ao entrelace de diferentes linguagens e variadas formas de expressão, ampliando os sentidos de leitura. À semelhança de algumas feiras, a proposta é que o público possa escutar um autor, compositor, cineasta, pintor, ler trechos de seu trabalho, expor clipes de seu filme, ver exposições de artes visuais, fazer uma audição musical e conversar com o artista/autor e comprar sua obra. Assim, buscamos conferir às ações da Feira não um caráter de atividade cultural, mas reafirmar a caracterização do COLE como um evento nacional na área da leitura que garanta a pluralidade de abordagens e sentidos.

Nesse sentido, seguimos, nos tempos atuais, resistindo e criando fendas que se abram às possibilidades de estimular a leitura, apostando nos espaços públicos e propulsores de sua efetuação.

Nosso convite à escuta do mundo está lançado. Grita?

Antonio Carlos Amorim
Presidente da ALB

junho de 2012

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: